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ESPECIAL NOQUINTAL.COM |
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Eu me contento com pouco?
Nesses últimos tempos... três coisas me deixaram muito feliz!
Coisa número um: O Obama foi eleito! Uhu minha gente! Sim, algo pode mudar nesse mundo. Isso é importante para as pessoas que têm alguma pretensão de mudar o mundo. (sim, as vezes, eu tenho uma rápida e ingênua pretensão de mudar o mundo).
Dois: Eu vi ao vivo uma coreografia do Maurice Bejart. Não fiquei feliz porque achei o máximo, ou porque ele realmente é bom. Fiquei feliz porque, à partir desse dia, não aceito mais a desculpa das pessoas que dizem que dança contemporânea não faz sentido.
Nunca mais venha dizer pra mim:
Não entendo nada! Dança e teatro contemporâneo não fazem sentido! Pra que isso?!?!
Minha resposta vai ser simples e direta:
Assista volta ao mundo em 80 minutos do Maurice Bejard! Se você conseguir achar algum sentido naquilo, você volta a conversar comigo!
Gente, não tem sentido! São mais de trinta bailarinos, ótimos por sinal (todos conseguem colocar a perna mais pra cima do que eu jamais coloquei meu braço, juntinhos ainda), fazendo passos de ballet clássico, com umas malhas coloridas (horríveis, diga-se de passagem), e músicas de diferentes países do mundo. (ou que um europeu acha que são músicas de diferentes países do mundo)
Não é que não gostei, (tá, eu não gostei) mas não é que é ruim. Não é ruim mesmo. Repito: eles são ótimos em todos os passos que eles se propõem a fazer. Mas não venha me dizer que aquilo tem um sentido e que minha arte contemporânea não tem!
Eles giram trocentas vezes no eixo e depois vem uma bailarina vestida de verde e passa saltando no fundo. Que sentido tem isso????
Eu não estou dizendo que tenha que ter. Agora, não venha reclamar que não gosta de arte contemporânea porque não faz sentido! Pode arranjar uma desculpa melhor!
Talvez arte contemporânea seja desagradável! Ver a bailarina, sofrendo pra caralho pra ficar naquela ponta, mas fingindo que está tudo bem, é mais agradável do que ver o performer nu, se sacudindo na sua frente.
Pra mim não, mas entendo que pra maioria da população talvez seja. Ver alguém que flutua, mesmo que com a maior dificuldade e com muita dor no pé, é mais confortável do que ver um cara nu, suado, mostrando suas fragilidades.
Não estou generalizando, please, nem tudo que você vai ver de arte contemporânea vai ter um cara nu, suado, mostrando suas fragilidades. Mas isso pode estar no seu caminho.
O que eu estou questionando aqui é o sentido que as pessoas procuram nos trabalhos de arte que vão assistir.
Porque que você acha um sentido no ballet e não na dança contemporânea? Porque que quando você entende facinho uma historia no teatro tem mais sentido do que quando a narrativa está entrecortada por diferentes interferências? Que sentido é esse?
No teatro fica um pouquinho mais fácil entender porque podemos falar em um sentido narrativo lógico. Conseguimos entender que ele é o pai, ela é a mãe e que eles ficam juntos no final. No teatro contemporâneo não sabemos quem é o pai, muito menos quem é a mãe, e nos perguntamos se uma dia eles tiveram juntos.
No Ballet, vemos a bailarina dançar a mesma sequência do cisne , há mais de dois mil anos, sempre magra e sorrindo, com o mesmo figurino e sem expressar nenhuma dor no pé. Na dança contemporânea vemos o performer dançar qualquer coisa que ele quiser, porque não temos uma sequência pronta, as vezes nem movimento e nem figurino, e se ele tiver alguma dor, com certeza, o público vai ver. (tá bom, as vezes eles fingem que não dói também)
Mas bom, voltando a história do sentido, o sentido que você reconhece no ballet e no teatro clássico vem do entendimento que você deve reconhecer algo pré- estabelecido pra entender a coisa. Ou, de que a arte deve te passar uma mensagem, que você pega, guarda e leva pra casa. Que você entende.
A arte contemporânea lida com questões e não com mensagens. (tô sendo beeeeem generalista aqui viu leitor!) Lida com instabilidade, com proposições, com desequilíbrio. Propõe algo que seja degustado como uma comida que você não conhece, um gosto que você nunca provou antes, uma mistura de sabores que, talvez, não seja de paladar agradável, mas intrigante.
Essa é a diferença do Bejard pra uma dança contemporânea (alguns dizem que o que ele fez em vida pode ser chamado de dança contemporânea, quero deixar claro aqui que não dá que eu estou falando). Maurice poderia ser um feijão muito bem feito. Eu estou com saudades de feijão bem feito. O feijão bem feito não é ruim, é muito bom. Ainda se colocar uma linguicinha, fica ótimo. Mas quando você prova um creme adocicado de ostras com uvas verdes e raspas de casca de abacate anão, sua língua nunca mais será a mesma. Talvez você não queira comer isso todo dia como seu prato básico, mas ele pode te proporcionar uma experiência que o feijão nunca te proporcionaria.
Essa experiência já tem sentido. Só o sentido de te questionar se tem ou não sentido, já é bastante pra mim. Se quisermos ir mais fundo, a questão de te proporcionar uma experiência diferente da do feijão também já é suficiente pra mim. Mais longinho ainda, testar novas combinações que podem inclusive modificar nossa relação com o feijão e fazer com que o feijão se modifique, também já é suficiente.
Por exemplo: o Obama.
Ver na poltroninha do presidente do país mais poderoso do mundo um negro filho de imigrante, já é substancial pra mim. Só isso, já é suficiente pra mim.
Eu me contento com pouco? Não! Mas podemos dar um passo de cada vez.
Foi aqui, nesse momento do texto, que eu parei de escrever e reli o que estava escrito até agora. Percebi que esse texto tem um ar de família. Parece que estou escrevendo pra minha família. Talvez, porque eles me respondem, a cada texto novo que posto aqui, com opiniões muito bacanas. Fico feliz com as repostas da família. Pra mim, isso já é suficiente.
Eu me contento com pouco? Não! Mas podemos dar um passo de cada vez.
Então, eu vou me permitir aqui dedicar esse texto à minha querida família!
Retomando os motivos de felicidade:
Terceiro e último: Minha prima e meu primo passaram no vestibular! Sim, ele em arquitetura e ela em relações internacionais! O quê exatamente relações internacionais faz? Não sei, mas talvez um dia ela possa me explicar do mesmo jeito que eu tento explicar o que é esse troco de arte contemporânea que ocupa meu corpo inteiro todos os minutos do dia. Fico super feliz por eles terem passado, apesar de não acreditar nesse sistema de vestibular.
Mas com o Obama no poder, meus primos na universidade e as pessoas querendo ver arte contemporânea sem procurar o mesmo sentido do ballet ou do teatro clássico, acho que damos um passinho a frente inclusive no pensamento sobre um novo jeito de entender educação.
Pra mim, tá tudo interligado.
Vamos comendo pelas beiradas até chegar no miolo.
Eu me contento com pouco? Não!
Não mesmo!
Neto Machado
netomachado@gmail.com
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